
Latas, garrafas pet e garrafões sobre cabeça, sobre o carrinho de mão, sobre o lombo de animais. E segue a romaria em busca da água de cada dia. Na torneira, o líquido não escorre há dias, há meses, há anos. É o Sertão? Não. A realidade agreste é vivida pelos moradores de uma das regiões mais bastas em água e chuva do Estado: o Norte de Alagoas. A secura por estas paragens é provocada pelo gargalo da incompetência dos poderes públicos que gerenciam os sistemas de abastecimento.
Porto Calvo é um dos casos mais emblemáticos, onde se tem água aos borbotões e escassez de vontade política. O município que já foi chamado de Santo Antônio dos Quatros Rios, tamanha a riqueza dos mananciais hídricos, condena seus moradores de hoje a beber uma água imunda, seja da torneira – quando chega – ou dos rios e nascentes cujo líquido é de qualidade duvidosa.
Boletos não apresentam a análise da água
Porto Calvo – Um morador de Porto Calvo, que preferiu não se identificar temendo retaliações, exibiu boletos de fatura, fornecidos pela prefeitura, para comprovar que, de maio a dezembro de 2010, os documentos não traziam os resumos das análises da qualidade da água distribuída, uma exigência legal que é descumprida pelo município.
“O mais curioso e revoltante é que pagamos as faturas e o sistema da prefeitura não dá baixa. Tenho boletos em aberto de 2007 que foram pagos”, reclamou. A Gazeta tentou falar com o diretor do órgão responsável pelo abastecimento de água de Porto Calvo, identificado como Everaldo, mas ele não foi encontrado na repartição. O telefone celular fornecido estava desligado ou fora da área de cobertura.
Cresce comércio clandestino
Porto Calvo – O desabastecimento crônico fez “jorrar” em Porto Calvo o comércio clandestino de água. São dezenas de fornecedores que se dirigem diariamente a fontes cujo líquido não se tem a garantia da qualidade, um risco à saúde pública. O engarrafamento é artesanal – sem nenhum tipo de esterilização; o transporte e entrega são feitos em carrinhos de mão ou sobre carrocinhas conectadas a motocicletas, de porta em porta, pelo sistema “disque-água”.
Uma das nascentes mais procuradas fica na Fazenda Gamboa, a uns três quilômetros do centro da cidade. Foi lá que Luiz Amaro Vasconcelos de Melo, 54 anos, encontrou a fonte da sobrevivência. Demitido de uma empresa de ônibus há sete anos, enxergou na falta de água um meio de vida e começou a engarrafar e a distribuir o líquido porta a porta.
Morador busca água em poços artesianos
Matriz de Camaragibe – Os conjuntos mais populosos de Matriz de Camaragibe, localizados na periferia da cidade, a exemplo da Fusal, Campanha, Alto da Bela Vista e Cícero Cavalcante convivem com o desabastecimento. Essas localidades, segundo a prefeitura, não são cobertas pelo sistema da Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal). O município assumiu a responsabilidade de levar o líquido às torneiras, mas até agora não conseguiu cumprir a missão.
Com centenas de casas, o Conjunto Cícero Cavalcante é um dos maiores de Matriz. É lá que Roseane Maria Belo, 34 anos, acorda às 5 da manhã para buscar água na casa da vizinha. “Eu coloco a mangueira e depois de uns dez minutos acaba a água. Três horas depois, volta de novo, aí passa mais duas horas sem. É uma agonia”, disse Roseane.
Homem vive de perfurar poços
Matriz de Camaragibe – O problema do desabastecimento d’água é tão antigo em Matriz de Camaragibe que há mais de 20 anos “seu” Cícero Manoel da Costa, 52 anos, o “Condé”, sobrevive perfurando poços artesianos. “‘Vixe’ Maria, já perdi até as contas de quantos poços eu cavei”, disse ele, ao ser questionado. Tez negra, braços e abdômen definidos pelo ofício, Condé se orgulha da profissão que executa manualmente, com o auxílio de ferramentas confeccionadas artesanalmente.
São três brocas perfurantes (uma delas para a limpeza do poço) um fuso e uma talhadeira usada para quebrar pedras que, por ventura, apareçam pelo caminho. À medida que o buraco vai ganhando profundidade, Condé vai encaixando canos de ferro e fazendo a rotação no terreno. Para aumentar o poder perfurante da broca, deposita sacos de cimento sobre a manivela. Trabalha auxiliado por mais dois ajudantes.
Maragogi e Japaratinga têm poços da Casal salinizados
Em Japaratinga, atendida pela Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal), desde dezembro de 2010 que os moradores das ruas periféricas e até do Centro sofrem com o colapso no abastecimento. No verão, a cidade é tomada por turistas e veranistas e o sistema não suporta a demanda. “Eu não tenho uma gota de água desde o ano passado”, reclama a técnica em enfermagem Bernadete Vasconcelos de Oliveira, 50 anos, moradora da Rua da Jaqueira. “Desde o Natal que estamos sem água”. Ela encontra socorro na casa da vizinha, a professora Maria José Lima, que pagou R$ 300 na perfuração de um poço artesiano. “Furamos há um mês; já não aguentávamos mais”, argumentou.
No maior distrito de Maragogi, São Bento, a falta de água também atormenta. O problema é semelhante ao de Japaratinga. O lugar recebe uma grande quantidade de turistas e veranistas, o que faz elevar o consumo do líquido. Os dois únicos poços pertencentes ao Sistema Autônomo de Água e Esgoto (Saae) não conseguem dar vencimento.
Por: Visão de Alagoas.
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